
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…Creio no mundo como num malmequer.
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se faz para persarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…8-3-1914
Fernando Pessoa. O Eu profundo e os outros Eus, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980. p. 137.

♥ 